"NA MINHA TERRA... "

     Ao entrar na Rua Aires Saldanha, em Copacabana, dirigindo o Fusca de Mané Garrincha, mexi com uma mulher que passava pela calçada:
     "Bonitona!"
     Seu acompanhante, de imediato, reagiu:
     "Veado!"
     Mané, mostrando surpresa por eu não reagir ao xingamento do homem, me perguntou:
     "O que é isso, Juca? O cara xinga você de bicha e nada de reação sua?"

     "Espere aí, Mané: não foi bicha, foi veado. E ele teve razão para me xingar, pois eu mexi com a mulher dele."
     "Quer dizer que chamam você de veado e fica tudo normal? Hummm! Não estou entendendo! Um filho meu não é veado. Volte lá e tire satisfação com o cara!"
     "Eu não, Mané. Arranjar briga por nada?"
     "Por nada? Então você é veado, Juca?"
     "Claro que não! Mas não preciso brigar para provar."
     Mané insistiu, enchendo minha cabeça. Pediu-me que o deixasse no botequim para tomar um cafezinho. Antes de saltar, vaticinou:
     "Na minha terra, quando um homem é ofendido reage na hora. E se possível com sangue."
     Dei mais uma volta no quarteirão, à procura de uma vaga. Ao entrar novamente na Aires Saldanha, vi o casal na calçada lendo um papel como se estivessem procurando um endereço. Sem pensar, parei perto do homem:
     "Meu irmão! O que você falou para mim?
     " Ele esperou um pouco, pensou e se lembrou:
     "Você mexeu com minha senhora e eu o xinguei!"
     "Pois não gostei e não repita mais isso ou a coisa vai ficar feia para você."
     Sem medo, o homem chegou mais para perto do carro:
     "Pois vou repetir o que disse: veado! Você é veado!"
     Dessa vez xingou alto. Da janela do apartamento em que morávamos, Elza, João, tio Jarbas e Gílson apareceram, apreensivos. No entanto, do botequim, Mané, com um copo na mão e acompanhado de três amigos, com gestos me incentivava a reagir. Infelizmente, contrariando meus princípios pacifistas, tomado por uma honra tolamente ferida, mas estimulado por Mané, respondi para todos ouvirem, também:
     "Se repetir, não responderei por mim, meu chapa!"
     O cara não se intimidou:
     "Veado!"
     Sai do Fusca, sem saber o porquê. Mas antes de descobrir, o sujeito que tinha uns dois metros de altura, deu-me um tapa na orelha que me deixou tonto e pendurado na porta do carro, com as pernas balançando no ar. O homem levantou parte de sua camisa, discretamente, mas o suficiente para eu ver o cabo reluzente de um revólver na sua cintura:
     "Agora entre nesse carro e se mande!"
     Com a orelha ardendo, envergonhado, assustado, obedeci.
     Deixei o carro na praia e fui, furioso, para pegar Mané. Ele havia saído para pescar, mas antes disse a Elza que eu encontrara um antigo desafeto na rua e queria tirar satisfações, não atendendo aos seus insistentes apelos para não brigar.
     E acabei levando um puxão de orelhas de Elza, de meus irmãos e de tio Jarbas. Todos acreditaram em Mané! E ainda me chamaram de troglodita.

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