SABOR
DE DESODORANTE
Esse é um assunto do qual me custa muita falar, por se tratar
de um vício que tem tirado do nosso convívio personalidades criativas, gloriosas,
famosas mundialmente. Refiro-me ao alcoolismo. No entanto, registro o fato
para destacar a forma solidária com que Mané Garrincha ajudou a tratar certas
pessoas atingidas por mal tão destruidor.
Na época em que morávamos em Jacarépagua, havia dois senhores,
chamados Valdlr e Wilson, que viviam o dia inteiro no bar de uma esquina do
bairro. Na realidade, não viviam no bar, sucumbiam ao orgulho, à falta de
dignidade com que eram tratados, por estarem doentes, vítimas do vício: Valdir
e Wilson eram alcoólatras.
No bar, ficavam à espera de alguém que lhes pudesse
pagar uma bebida, já que não tinham como sustentar o vício. Ambos haviam perdido
tudo na vida, até a identidade.
Quando embriagados, várias vezes lamentavam a maneira como
haviam sido abandonados por suas famílias. Falavam, sempre com voz embargada
e carregada de emoção, lágrimas nos olhos, da insensibilidade dos filhos e
das mulheres.
Mas eles tinham um amigo: Mané. Mané os respeitava, compreendia-os,
e demonstrava, com gestos e atenção, que reconhecia neles pessoas de bem.
Brincava com eles, contava piadas ou jogava bilhar. Mané os confortava. Sabendo
da necessidade de ingerirem álcool, pagava alguns tragos. Mas sempre fazendo
questão de enfatizar, como que alertando os dois, que deveriam procurar ajuda
médica.
Num desses encontros, Mané não pagou a bebida, como esperavam
Valdir e Wilson. Mané surpreendeu ao convidá-los para irem até nossa
casa. Um dos motivos do convite era mais do que compreensível: Elza estava
viajando - se não estivesse, jamais concordaria em vê-lo acompanhado de dois
alcoólatras, dois homens entregues ao vício, que jamais demonstravam força
para tentar, pelo menos, superar o angustiante problema.
Valdir e Wílson, ainda meio sem acreditar que estavam na
sala da casa de Mané e Elza, passaram a prestar atenção nas
palavras do anfitrião.
Mané levou-os até uma parede que necessitava de reparos,
dizendo que confiava neles e que ao voltar do treino tomariam uma cerveja
juntos. Forneceu-lhes o material necessário para o pequeno serviço: cimento,
areia, pedra e as ferramentas de que precisariam.
Na realidade, o que Mané queria era provar que ainda poderiam
trabalhar e, com ajuda adequada, retornar a seus lares totalmente recuperados
do vício, orgulhosos de si mesmos.
Para evitar qualquer surpresa, Mané guardou as bebidas que
encontrou. Ordenou aos empregados que dessem toda a assistência aos dois,
mas que em hipótese alguma lhes oferecessem bebida que contivesse álcool.
Valdir e Wilson aceitaram fazer o serviço, agradeceram a confiança
e força que Mané demonstrava mas ressaltaram que o esperariam para a cerveja
prometida. Mané repetiu a proposta, seguida de uma promessa que os deixou
visivelmente alegres:
"Se fizerem o serviço direitinho, vamos jantar e tomar até
três geladinhas.
" Mané saiu para treinar, enquanto Valdir e Wilson puseram
mãos à obra. Às 18 horas, Mané voltou. Ao entrar em casa, foi diretamente
ao local onde estavam Valdir e Wilson. Não os encontrou. O serviço estava
começado e não terminado.
Lúcia, uma das empregadas da casa, disse que eles queriam
beber algo para continuar o serviço. Então, fez café, que foi rejeitado. Levou-lhes
sucos, que não beberam. Até que disseram que sairiam para comprar algo para
concluir o serviço e não voltaram. Mas o mais surpreendente foi que, ao entrar
no banheiro de empregados, Lúcia encontrou três frascos vazios de um desodorante
líquido.
Mané foi ao bar e lá conversou com eles. Cabisbaixos, envergonhados,
disseram que não haviam agüentado ficar sem uma bebida, suas mãos tremiam
e não lhes deixavam trabalhar. Como a empregada não lhes servira qualquer
bebida, ingeriram os desodorantes que estavam nos frascos do armário do banheiro
e fugiram para não serem descobertos.