O
DIA DE QUARENTINHA
Mané ficou batendo bola com meu irmão Gilson, dono de potente
chute, e eu naquele campinho situado atrás da minha casa. Gilson gabava-se
da força do seu pé esquerdo. Não tinha talento para conduzir a bola. No entanto,
realmente sabia bater muito bem nela.
Desafiou Mané a ir para o gol e tentar agarrar pelo menos
uma bola chutada por ele. Mané gostava de desafios, foi para o gol.
Gilson chuto cinco vezes, três para fora do campo, uma, o chão, arrancando
tufos de grama, e uma outra Mané defendeu sem maiores dificuldades.
Meu irmão saiu aborrecido, havia perdido uma aposta e seu castigo
era estudar. Mané tentou animá-lo, disse que aquilo acontecia, em dias em
que nada dá certo. E para exemplificar, falou de um jogo do Botafogo na Argentina.
"Quarentinha era um atacante conhecido pelo forte chute. Talvez
o único no time que tinha coragem de cabecear uma bola cruzada por
mim, geralmente com chute forte também. E as bolas da época eram mais pesadas.
O Botafogo jogava contra o Velez. Lá pelos minutos do primeiro tempo,
Quarentinha recebeu um lançamento e partiu em velocidade, livre. Levantou
a cabeça para saber o local exato onde chutaria a bola. O goleiro estava com
o braço levantado, tranqüilo, despreocupado, apontando para o bandeirinha.
Ele estava impedido e o árbitro marcou. O goleiro olhou para ele e riu. Quarentinha
partiu em minha direção e pediu: 'Mané, esse goleiro me sacaneou, está brincando
com a verdade. Role uma daquelas para mim, que eu vou enfiar esse cara para
dentro do gol com bola e tudo.
Mané prosseguiu a narrativa, após rápida pausa:
"Fui mais uma vez à linha de fundo, procurei Quarentinha e rolei
na medida, como ele pedira. Ele chutou o chão, como você, Gilson, e a bola
foi pererecando lentamente para as mãos do goleiro, que novamente olhou para
o nosso atacante e fez um gesto provocativo, negativo, com a cabeça. Quarentinha
ficou ainda mais furioso, queria a todo custo acertar um daqueles violento
chutes. Seu objetivo era acertar o peito do goleiro. No intervalo, ainda O
a O, ele foi para um canto do vestiário. Não queria falar com ninguém. Nem
prestou atenção ao técnico. Aproximou-se mais uma vez de mim e me implorou:
'Garrincha, por favor, role outra daquelas...'"
A resposta de Mané:
"Vou tentar, Quarenta, mas o jogo de hoje não está fácil. Os
caras estão marcando em cima e forte." Isso não é problema para você. Pelo
amor de Deus, me deixe frente a frente com aquele goleiro.' Implorou Quarentinha.
" Mané se entusiasmou:
"Meninos, no segundo tempo Quarentinha tentou uma três vezes
e o chute não saía como ele desejava. E olha que o homem tinha uma bomba naquele
pé. O pior é que o goleiro realmente debochava dele. Mas não adiantava. Quanto
mais vontade tinha de acertar, mais falhava. Houve uma que ele furou bisonhamente.
O goleiro riu alto. O árbitro percebeu e lhe chamou a atenção. A um minuto
do fim, houve uma falta na meia-lua. Quarentinha arregalou
os olhos, olhou para o goleiro, pôs a bola na marca com carinho, virou-se
para mim e disse: 'Ah, Mané! É agora. Era a oportunidade que eu precisava.
Pode ter certeza de que dessa vez arranco a cabeça daquele cara.' E se preparou
para bater a falta. Ficamos ao lado da bola, eu Mestre Didi e Quarenta, que
pediu ao Mestre permissão para bater a falta. Quarentinha, com a permissão,
tomou grande distância, apertou o laço da chuteira, suspendeu as meias, deu
mais uma olhada terrível por cima da barreira, formada por sete argentinos,
para saber onde estava o goleiro. O árbitro apitou. Ele bateu com a ponta
da chuteira no gramado e partiu para a bola. Distante da bola, ganhou velocidade.
Mas quando estava a três metros dela eu chutei e fiz o gol. Todos correram
para me abraçar e eu fugia de Quarentinha, que queria me pegar. Depois, no
vestiário, vitória assegurada, consegui amansar Quarentinha dizendo que pelo
menos ele não arrancara a cabeça do goleiro."