PRESENTE
(?) DE GREGO
Mané fazia sua caminhada matinal pela Praia da Barra da
Tijuca. Um comerciante, botafoguense fanático, ao vê-lo, convidou-o para conhecer
a sua agência de automóveis. Após longa conversa, fotos com o craque, e só
do craque em alguns deles em exposição, mandou Mané escolher um. Ele gostou
de um Fusca bege e o levou para casa. E me fez uma bela surpresa.
"É seu, Juca! Para você não reclamar dos bondinhos
de Santa Teresa", brincou.
Na época, eu me preparava para o vestibular e morava com
meus padrinhos, Claudionor e Maria Aparecida, no lúdico bairro de Santa Teresa.
Que surpresa! Ganhara um carro. Saí dirigindo meu Fusca
do Joá, onde Mané e Elza moravam, até Santa Teresa. Ao chegar, foi aquela
festa. Claudionor desconfiou, achava que havia algo estranho na documentação
do veículo, que não estava no meu nome.
Pouco me importavam os documentos do carro. Eu estava feliz
como uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo. Desfilava garbosamente
com meu Fusca bege pelo bairro e dizia com orgulho ter sido presente de Mané
Garrincha.
Na sala de aula do cursinho, sentava-me ao lado de uma bela
jovem chamada Neide, que eu tentava conquistar há tempos. Era uma mulher linda,
doce brancura, cabelos lisos e longos, olhos negros, nariz afilado, lábios
finos, modelados: moça deslumbrante. Cobiçada pela maioria do homens da sala.
Certa vez me mostrou uma reportagem sua numa revista, pois ganhara um concurso
estudantil de beleza.
Numa noite, após tímidas tentativas, ela, enfim, aceitou
a carona no meu carro novo. Radiante, ainda incrédulo, fantasiava os momentos
que há muito vinha pretendendo ao lado dela.
Ao fim da aula, descemos juntos as escadas a caminho do
estacionamento. Neide aceitou dar uma esticada até a Praia de Copacabana,
andarmos pelo calçadão, aproveitando a bela noite de verão, antes de irmos
para casa. Eu não me continha de tanta ansiedade, o coração parecia querer
explodir. Eu estava apaixonado.
No entanto, ao chegarmos ao estacionamento dois homens me
aguardavam encostados no carro. Um se identificou como oficial de Justiça
e apresentou mandado de apreensão do veículo, por falta de pagamento. De início,
fiquei sem entender nada. Estava envergonhado, decepcionado.
Neide foi compreensiva quando contei que ganhara o carro
de presente. Fomos caminhando pelas ruas do Centro, até que o amigo Cláudio,
que também tentava conquistar Neide, apareceu dirigindo o seu carro e nos
ofereceu uma carona. Deixou-me na estação dos bondinhos e levou minha conquista
para casa.
No dia seguinte fui à casa do Joá e contei o acontecido
a Mané, que foi sucinto:
"O dono mandou eu escolher um carro. Pensei que fosse de
graça. O cara ficou me ligando um tempão para eu devolvê-lo, mas eu dizia
que o carro estava com você. Devolveu, Juca? Então está bom!", explicou Mané.
Fui embora chateado, frustrado, depois de três meses curtindo
o Fusca bege. Estava com uma das mais belas mulheres na mão e vi tudo sumir
de repente. Não senti raiva de Mané Garrincha, que fora mais uma vez usado.
Acredito que tenha se vingado do comerciante por ter usado sua imagem indevidamente.
Perdi, o Fusca, o presente de grego que Mané me dera. Mas
não perdi a namorada.