O
"PILOTO" SABARÁ
Cada componente da comissão técnica da vitoriosa
delegação da Copa Do Mundo de 1958 ganhou um carro: um Renault
Dauphine. Entre eles, o roupeiro e massagista Assis, do Vasco. Como não
sabia dirigir, vendeu o Dauphine para Sabará, um dos maiores pontas-direitas
do nosso futebol.
Sabará também não sabia dirigir. Pediu,
então, ao craque Escurinho, que fora caminhoneiro em Minas Gerais antes
de se tornar um dos maiores ídolos do Fluminense, que passasse a usar
o carro.
Escurinho levava de carona, além de Sabará,
Mané Garrincha, Quarentinha e Clóvis, na época o quarto-zagueiro
do Fluminense. Deixava primeiro Sabará no Vasco; depois, Quarentinha
e Mané no Botafogo; e seguia com Clóvis para as Laranjeiras.
depois, fazia caminho o inverso.
Enquanto dirigia, Escurinho pedia a Sabará que prestasse
atenção. Prestastivo, Escurinho parava algumas vezes numa rua
deserta da Ilha do Governador, onde todos moravam, para tentar ensinar, na
prática os fundamentos a Sabará.
Durante o percurso, Garrincha, sempre brincalhão
e provocador com todos, insistia para que Sabará dirigisse, sob protestos
dos companheiros. Afinal, Sabará não conseguia passar nem sequer
a primeira marcha. Um mês depois, de tanto ouvir Mané dizer que
ele estava pronto para assumir o volante, Sabará se encheu de coragem
e resolveu levar o carro, para aflição de Quarentinha e Clóvis.
Escurinho tentou evitar, mas Sabará disse que, naquela dia, daria carona
aos amigos. Mané sorriu.
A cada barbeiragem de Sabará pela Avenida Brasil,
Quarentinha e Clóvis imploravam para Escurinho expulsá-lo do
volante. No entanto, Sabará parecia tranqüilo. A tal ponto que
nem percebia as loucuras que fazia.
Já
próximo de São Cristovão, Escurinho alertou que teria
de entrar na segunda rua à direita. Ordenou calma e que prestasse atenção.
Mas Sabará entrou na primeira rua e não na segunda.
Todos se apavoraram, pois havia uma enorme carreta atravessada.
Sabará, nervoso, acelerou e foi diretamente de encontro à carreta.
Os companheiros, aos berros, cheios de pavor, puseram as mãos nos olhos.
Porém, o Dauphine passou por sob a carreta, arranhando apenas o teto.
Um guarda, ao ver a cena, ligou a sirene da sua moto e foi
atrás. Emparelhou com Sabará e ordenou que encostasse o carro.
Assustado, sem habilitação, Sabará não atendia
e continuava em alta velocidade, para desespero de Quarentinha, Clóvis
e Escurinho.
E de nada adiantavam os apelos dos três para Sabará
enconstar. Mané, que só fazia sorrir, achou tempo para fazer
de suas brincadeiras com Quarentinha, pedindo que pusesse a cabeça
para fora do carro para o guarda reconhecê-lo. Quarentinha reagiu, xingando
Mané.
Quando
Sabará conseguiu parar, o guarda se aproximou de arma em punho e disse:
"Meu amigo, você é um ás do volante. Passou por debaixo
daquela carreta... Que coragem!"
O guarda pediu a habilitação. Sabará
não tinha. Mandou que todos descessem. Foi a sorte. Ele reconheceu
os craques, principalmente o ídolo, Mané Garrincha.
Mané disse que precisava chegar cedo ao treino. Mas
o guarda percebera que ele corria risco de nem chegar. Para surpresa, o guarda
mandou Escurinho assumir o volante do Dauphine. Disse a Mané para subir
na garupa de sua moto e o levou em segurança para o treino no Botafogo.