"PERDÃO, VELHINHOS!"

   Mané, durante um coletivo na Gávea, quando atleta do Flamengo, driblou o goleiro reserva uma vez. Este, como um gato, recuperou-se, atirou-se a seus pés, foi driblado novamente. Não se dando por batido, levantou-se, cara-fechada, dentes trincados, mãos espalmadas, encheu o peito de ar e mergulhou, na tentativa de evitar o gol. Caiu de bunda no chão, contorcendo-se em dores. Mané parou a jogada e pediu atendimento para o desafortunado.
   Depois do treino, já a caminho de casa, pela Avenida Atlântica, ouvindo uma moda de viola no rádio de seu Fusca, Mané aproveitou a parada num sinal para pegar um maço de cigarros no porta-luvas. Nesse instante, passou em velocidade um conversível vermelho. O motorista gritou:
   'Garríncha veado!'
   Mané olhou assustado, não deu tempo de ver o agressor, perguntou-me se eu o havia reconhecido. Eu disse que parecia ter sido o goleiro que ele humilhara no treino.
   Resolveu ir atrás, devolver o xingarnento, mas o carro importado do goleiro era veloz, foi impossível alcançá-lo. Tentei demover Mané da idéia de retribuir o palavrão, mas ele, irredutível, queria a qualquer custo emparelhar seu Fusca à máquina cor de sangue do playboy. Não conseguiria alcançar o homem. A testa franzida, o olhar de águia definiam sua fúria por não devolver a ofensa.
   Observei um carro da marca Mercedes-Benz conduzido com cautela por um senhor idoso; careca, bigodes brancos, óculos fundo de garrafa, lentes verdes. A seu lado, uma senhora, olhar cândido, cabelos totalmente grisalhos. Reconheceram Garrincha, mas arrancamos e eles ficaram para trás. Aceleraram e passaram por nós, ólhando firmes para terem certeza de que se tratava realmente do inigualável Gênio das Pernas Tortas.
   Paramos em outro sinal, Garrincha conversava comigo manipulando o maço de cigarros ainda fechado, chateado por não ter devolvido o xingamento a seu desafeto.
   O casal de idosos queria saudar Garrincha. Para isso emparelharou seu Mercedes-Benz, lado a lado, bem pertinho do Fusca, quase tocando-o. A senhora, então, aproveitou a aproximação e, carinhosamente, exclamou:
   'Mané Garrincha!'
   Mané, sem perceber, falando comigo e ao mesmo tempo abrindo o maço de Hollywood, ao ouvir o chamado pensou tratar-se novamente do goleiro. E não perdeu tempo: virou-se e, com a cabeça quase dentro do carro da idosa fã, respondeu em alto e bom tom:
   'Fala, bicha arrombada!'
   O casal se assustou. Olhos arregalados, ambos boquiabertos, envergonhados pela inesperada e grosseira resposta. O motorista fez o carro sair em disparada. Mané, ao perceber o que fizera, tentou, em vão, alcançar a potente máquina para se desculpar. Não conseguiu.
   Não conformado, dirigiu até nossa casa, na Urca, lamentando-se, citando sem parar todo o seu arrependimento por ter tido comportamento tão diferente, tão contrastante com sua simplicidade, sua candura. De tão revoltado consigo mesmo, só parava de se lamentar para jurar, sem meias palavras, que se vingaria do goleiro. E repetia:
   'Perdão, velhinhos!'

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