O
PRIMEIRO JOÃO
De repente, eu perguntei: "João existiu, Mané?" Ele me olhou
com desleixo, pensei até que não me responderia com a seriedade com que a
pergunta fora feita. Até porque eu acreditava que nem ele sabia a origem dessa
rubrica carinhosamente dada a seus desafortunados laterais.
Após longo suspiro, ele me deu a sua versão:
'Na minha adolescência, em toda Semana Santa, eu era obrigado,
assim como a maioria dos jovens da localidade, a assistir ao filme sobre a
Vida de Cristo. Só duas coisas me chamavam a atenção: a dança sensual de Salomé
e o fato de ela ter pedido a Herodes a cabeça de João Batista numa bandeja.
'No Sábado de Aleluia, os meninos vingavam-se em judas amarrados
em postes. Eu achava covardia dar pauladas e incendiar bonecos indefesos.
Mas no domingo, após a missa, eu fazia de judas meu marcador, via nele um
soldado romano, entregando, com sorriso mórbido, a cabeça de João Batista
numa bandeja.
'Num desses jogos, contra um time de uma fábrica de suco
de laranjas de Petrópolis, ao sair do vestiario para o gramado, o time adversário
ouvia a preleção de um homem de cabelos grisalhos, mais de 40 anos de idade,
e que vestia a camisa número 6. Pensei comingo: será que esse coroa
vai me marcar?
'Ele gritava, gesticulava, dava bronca nos jogadores, que
ouviam em silêncio, cabeças baixas, submissos. Mais tarde, soube que era o
gerente dos meninos. Um tirano, chefiava com mão-de-ferro. Demitiu muito pai
de família. Pois o homem era realmente o lateral-esquerdo que me marcaria
naquele Domingo de Páscoa.
'Na primeira jogada, passei facilmente por ele. Esperei
que voltasse. Mais um drible, outro, outro mais. Ele caiu. Cruzei a bola para
a área: gol nosso. Com 20 minutos, vencíamos por 4 a 0. E o pobre do lateral
estava humilhado diante dos funcionários, que gostavam do baile que o poderoso
chefão levava.
'Mas eu não gostava de moleza. O pobre homem virara um judas
de pano que a molecada malhara sábado, sem forças para reagir, o rosto
vermelho como fogo. Seu peito arfava intensamente, boca aberta implorando
por oxigênio, olhos esbugalhados. Esse coroa vai morrer...
'Até que numa jogada quase ao fim da primeira etapa, em
que eu o havia iludido três vezs e por último jogado a bola por entre
suas pernas, parei colado à bandeirinha de córner para fazer o cruzamento.
De repente, lá veio ele, correndo feito touro bravo, bufando, tirando de dentro
do peito talvez as sobras de energia, orgulho ferido. Atirou-se na grama num
carrinho criminoso para pegar a bola, se possível.
'Ao pressentir a entrada desleal, dei um leve toque na bola,
mais uma vez por entre suas pernas. A torcida foi ao delírio, caiu em gargalhadas.
Ele deslizou na grama molhada e só não caiu no rio porque foi travado pelo
mastro da bandeirinha, que se encaixara entre sua pernas. Ele gemeu de dor,
e nós gememos juntos. A impressão que tive era de que seus órgãos genitais
haviam sido esmagados, tal a força do impacto.
'Depois da paralisação para atendê-lo, ele se levantou,
andou com dificuldade, pernas abertas como se estivesse carregando o mundo
entre elas. Perto de mim, balbuciou: 'Desculpe, perdi a cabeça.' Então, respondi:
você é João Batista? Ele me olhou sem entender e saiu carregado do campo,
apoiando-se em dois jogadores de seu time.
'Acho que foi a partir daquele domingo que todo lateral
que me marcou com violência virou João.
' Existiu lateral-esquerdo que tenha jogado com o nome de
João?