O
GARÇOM PERFEITO
Casado era garçom da concentração do Botafogo, homem que
levava sua profissão a sério. Exigia e se dava ao respeito, não admitia brincadeiras
de mau gosto, pois também não brincava em serviço. Tinha disciplina de bom
soldado. Falava com entusiasmo de sua crença e de seu Deus. Roupa impecável,
cabelos bem penteados, fixados com Gumex, o andar parecia o de um lorde inglês:
corpo ereto, barriga para dentro, peito para fora, nariz na horizontal, sempre
carregando com segurança a bandeja sobre o ombro. Realmente, quando servia
os atletas demonstrava firmeza, elegância e cuidado. Não queria perder o título
de o melhor garçom das concentrações.
A fama de Casado corria pelos demaisclubes. Despertava curiosidade
por se tratar de um homem sisudo, competente e dono de um invejável recorde:
durante 25 de profissão jamais havia deixado cair uma bandeja, nem um garfo,
uma faca, um prato ou até mesmo um guardanapo.
Mané, quando concentrado, olhava Casado com certa desconfiança.
Comentava com Pampolíni e Adalberto não acreditar que Casado, com tanto
tempo de trabalho, não tivesse deixado cair nada. Conversar com Casado durante
o serviço era impossível, ele não respondia a ninguém, concentrava-se no serviço.
Adalberto e Pampolíni desconfiaram que Mané queria armar
uma cilada para Casado. Sugeriram que deixasse o homem em paz, pois, além
de bom garçom, era amigo de todos.
No almoço do dia seguinte, Mané não resistiu:
"Casado, é verdade que você nunca deixou cair uma colher?"
Casado, sem dar pausa na sua tarefa de servir, respondeu
com orgulho e ênfase:
"Realmente, senhor Garrincha. Assim como o senhor, sou muito
bom no que faço. Nunca deixei cair nada no chão nem em cima dos clientes.
E assim quero continuar até me aposentar, daqui a cinco anos. Digo mais, senhor
Garrincha: muitos apostaram que um dia veriam eu deixar cair a bandeja no
chão. Mas podem perder as esperanças, porque isso jamais acontecerá.
" Com cinismo, Mané apoiou:
"Tenho certeza de que quem apostou vai perder a aposta."
No quarto, Mané apostou com Adalberto e Pampolini que no
jantar Casado deixaria cair a bandeja. Aposta imediatamente aceita. Os jogadores
pensaram que Mané derrubaria Casado, talvez empurrando-o ou fazendo-o tropeçar.
Durante o jantar, Mané tentou provocar a queda de Casado.
Pôs o pé no seu caminho, os pratos sujos na bandeja de qualquer maneira, provocando
um desequilíbrio. Mas Casado desvenciIhou-se habilmente das armadilhas de
Mané, sem perceber que tudo era proposital.
Adalberto e Pampolini sorriam, na certeza que Mané, enfim,
perderia uma de suas muitas apostas. Os pratos do jantar haviam sido retirados.
Mané só tinha uma chance: o talher da sobremesa, que seria servida
a seguir.
Casado distribuiu pelas mesas os pratinhos com doces. Mané
o olhou em silêncio, mas, claro, na sua cabeça processava-se algo.
A maioria dos jogadores sabia da aposta. Os que tinham conhecimento
dela comeram a sobremesa mas permaneceram à mesa. Casado recolheu pratos e
colheres, ajeitou tudo na bandeja. Para ganhar tempo, pegou também as xícaras
de café. A bandeja estava pesada. Quando saía em direção à cozinha, Mané o
agarrou por trás e disse: "Quero você, Casado! Quero amar você, aqui e agora."
Casado, aos berros, invocando seu Deus, apelando para Mané
soltá-lo, tentou livrar-se do assédio maldoso de Mané, que ainda fazia gestos
obscenos. Por incrível que possa parecer, Casado foi se soltando sem, no entanto,
largar a bandeja. Contorceu-se como um judoca num combate olímpico, tentando
sair do abraço de Mané. Foi abaixando-se até ficar deitado no chão. Mas a
bandeja permaneceu em suas mãos, com todos os pratos, talheres e xícaras sobre
ela. Nada havia caído. Mané desistiu, perdeu a aposta. Casado era perfeito.