GAMBÁS
SALVADORES
Jornalistas suecos queriam entrevistar Mané para confirmarem
na sua imprensa se realmente um craque deixara, durante a realização da Copa
do Mundo de 1958, um filho, fruto de um ligeiro romance com uma camareira
do hotel no qual a Seleção se concentrara. Mas Mané fugia desse ou de qualquer
outro compromisso com conotação sensacionalista. Como é sabido, ele não gostava
destas badalações: jornais, revistas, televisão... O homem fugia da exploração
da mídia.
Por mais que fugisse, após a exuberante atuação na Copa
de 1962, no Chile, seu nome foi glorificado no mundo. Os jornalistas, com
a insistência que é do conhecimento de todos, não desistiram de procurá-lo.
De tanto telefonarem para Elza, conseguiram desta, à revelia de Mané, a promessa
de que teriam a reportagem sobre o romance com a camareira.
Quando Mané soube do que Elza fizera, houve uma pequena
discussão. Mas ele sabia: tudo que ela fazia, era em seu benefício. E acabou
concordando em receber os suecos e falar, enfim, sobre o tal filho na Suécia.
Para o dia agendado, EIza, para recepcionar os jornalistas,
convidou-os, por contato com seus representantes no Brasil, para um almoço.
Pensou que assim Mané se sentiria melhor, mais à vontade, e os jornalistas
não seriam implacáveis nas perguntas. A entrevista sairia da formalidade sueca
e ficaria na informalidade brasileira, como Mané gostava.
Lembro-me de que foi numa quarta-feira. Elza sofisticou o almoço.
Mandou preparar um cardápio francês. A mesa foi finamente posta. Nós, crianças,
fomos mais uma vez preteridos: almoçamos nosso feijão com arroz, bife, batatas
fritas e... Postos para fora de casa.
Os suecos chegaram às 11 horas, embora o almoço estivesse
marcado para as 13 horas. Vimos aqueles homens brancos, cabelos amarelos,
falando muito e interpretados por um baixinho gordo, muito sorridente. Mas
onde estava Mané?
Estava, em companhia de um dos
seguranças da rua, na mata, caçando gambás, carne muito apreciada por
ele. Provavelmente, tanto a caçada quanto a ingestão da carne do animal o
remetia à infância em Pau Grande. Elza não sabia mais como disfarçar a ausência
de Mané. Dizia que ele estava treinando no clube, pois haveria jogo pelo então
Campeonato Carioca no fim de semana. Mas no fundo ela sabia que ele estava
enfiado na mata e temia que chegasse sujo, com gaiola na mão, e passasse pela
sala.
Mané demorava, o almoço e a preocupação de Elza aumentavam.
De repente, uma barulheira estranha. A empregada chegou assustada à sala e
chamou Elza, que pediu licença e foi saber do que se tratava.
A moça disse que Mané e o segurança Nicolau entraram pela
garagem com duas horríveis gambás mortas. Elza pediu que ela fosse imediatamente
à garagem e mandasse Mané tomar banho para almoçar, pois os gringos já o esperavam
por cerca de três horas. Mané recebeu o recado, entendido como uma ordem de
sua mulher, mas antes quis limpar os gambás.
Esses bichos, instintivamente
fingem-se de mortos e ao menor descuido de seu caçador fogem. E foi o que
aconteceu. Um dos animais não estava morto. Quando Mané o livrou da corda
e o pôs no chão para limpá-lo, ele fugiu, entrando pela primeira porta aberta
da casa, justamente a que levava ao salão onde se encontravam os repórteres.
Mané e Nicolau saíram dele atrás feitos loucos, cada um com um porrete na
mão, envergonhando Elza e assustando os convidados, que assistiram a tudo
apavorados, olhos arregalados, sem entenderem nada do que se passava.
O bicho foi recapturado, mas depois de ter deixado o seu
cheiro nada agradável no ambiente em que deveria ser servido o almoço.
Naquele dia Elza aprendeu, a partir da pantomina, e evitou
marcar novas entrevistas para Mané na nossa casa.