PRA
QUE DINHEIRO?
Mané
me perguntou se eu queria ganhar um radinho de pilhas. Respondi que sim, claro.
Mané, então, convidou-me para ir ao treino do Olaria, time pelo qual exibiu
seus últimos dribles profissionalmente.
No carro, a caminho de Olaria, fiquei pensando no motivo
da oferta, seguida de um convite. Mané não era chegado a presentear ninguém.
Por que eu ganharia um rádio de pilhas? Provavelmente, efeito de alguma aposta
que ganhara e o prêmio seria o pequeno aparelho.
Mané primeiro passou naquele barbeiro amigo em frente ao
estádio da Gávea. Pediu ao oficial que lhe deixasse com cara de Clark Gable.
O barbeiro desconsiderou a pequena fila de espera e autorizou Mané a se sentar
na cadeira de sempre: a da ponta direita.
Enquanto era barbeado, um homem entrou. Pediu dinheiro emprestado
a um freguês que aguardava a vez. Sem êxito. Pediu ao segundo, que lia uma
revista, e recebeu um não de cabeça; do que estava sentado na cadeira central,
outro não com a mão. O pedinte foi chamado a atenção pelo barbeiro e convidado
a se retirar.
Antes de atender, foi até Mané. Não precisou fazer o apelo:
Mané enfiou a mão no bolso e, sem ver o rosto do sujeito, deu-lhe
uma boa quantia. O homem, agrdecido, saiu dizendo que em breve pagaria. O
barbeiro, surpreso, perguntou a Mané se ele pelo menos sabia a quem
dera a grana. Mané, despreocupado, respondeu:
"A alguém que estava precisando. É gente boa, disse
que me pagaria em breve."
Na verdade, ele nem vira a fisionomia do homem a quem dera
o dinheiro.
Barba e cabelos feitos, seguimos para o campo da Rua Bariri.
Ao chegarmos, fiquei ansioso para ganhar o tal radinho de pilhas. Esperei
pelo perde-dor da possível aposta, enquanto ele foi para o vestiário pôr a
roupa de treino.
Mané entrou em campo com o uniforme completo do Olaria.
Alguns companheiros dele já estavam também uniformizados. Eu pensei que haveria
um jogo-treino. Mas foi uma equipe de produção de filmes que entrou em campo.
O diretor começou a gritar para que preparassem o set, pois queria aproveitar
o belo sol da manhã.
Soube então que Garrincha fora convidado para estrelar um
comercial de uma famosa marca de rádios de pilhas. Ao fim, ganharia alguns
aparelhos e eu seria um dos contemplados.
No roteiro, os companheiros de Mané, coadjuvantes, seriam
driblados por ele, que, após ultrapassar o último marcador, não faria o gol:
receberia um rádio de pilhas e teria de sair vibrando com ele ao ouvido.
Passado e repassado o texto, o diretor deu ordem para gravar
a cena. Mané driblou Mineiro, Gessé, Fernando Pirulito, Mário Tito, Salvador...
Ao chegar diante de Beto, o goleiro, recebeu o rádio e saiu vibrando, mas
não conseguia convencer o diretor. Ao fim da décima tentativa, o diretor,
possesso, ordenou: 30 minutos de pausa.
Mané chamou o diretor a um canto. Após tensa conversa, tirou
a camisa e saiu aborrecido do campo, dizendo que não gravaria mais nada, que
era uma sacanagem. Realmente, abandonou tudo. Fomos embora sem o esperado
radinho de pilhas. Mané se irritou ao saber que seus companheiros, servindo
de figurantes para ele no comercial, não receberiam nada. Ele exigiu
do diretor que fossem pagos pelo trabalho.
Como o diretor disse que não poderia atender, então ele
desistiu do comercial. Abriu mão de uma boa grana e do meu radinho.
Domingo passado, eu estava no Tijuca Tênis Clube, que tem
o maior campeonato de dentes-de-leite do Brasil. Lá estava também o ex-craque
Salvador, um dos primeiros campeões brasileiros de futebol, ti tulo conquistado
quando jogava pelo Atlético Mineiro. Hoje ele dá aulas nas escolinhas do Touca.
Salvador lembrou-se do episódio. E esclareceu: disse que Manó solicitara que
todos os jogadores que estavam em cena recebessem a mesma quantia prometida
a ele. Como ouviu um não como resposta, abriu mão de sua parte para que fosse
dividida por todos. Voltou para o vestiário, tomou banho e me chamou para
irmos embora. Mané não ligava para dinheiro. Preferia ter amigos.