O
DEUS DE MANÉ
Hoje é 20 de janeiro, data em que o carioca reverencia seu
padroeiro, São Sebastião. Homem que viveu durante o Império Romano e foi martirizado
por se negar a prestar obediência ao imperador Diocleciano, aceitando-o como
um Deus.
Segundo a Igreja, São Sebastião apareceu no
barco de Estácio de Sã, no século XVI, ajudando-o espiritualmente na luta
contra os franceses, na Batalha das Canoas, travada na Baía de Guanabara.
Por essas tramas incompreensíveis dos
deuses, Garrincha, que também morreu num 20 de Janeiro, há 19 anos, foi consagrado
pelos brasileiros, e por torcedores de todo o mundo na Copa de 1958. E nesse
ano, enfrentávamos uma esquadra francesa, em gramados da Suécia.
Também por causa de seus dribles espirituais,
vencemos por 5 a 2. Eu tenho certeza de que ele nos deixou nessa data para
que, sempre ao lado de São Sebastião, nós jamais o esquecêssemos.
Mas não vou falar de morte. Até porque esse
Mané de que falo em minhas colunas está vivo na memória dos amantes do futebol-arte,
alegre, vitorioso e desprendido: vou falar de seu Deus.
Eu estava na casa da Barra da Tijuca com
um amigo discutindo um fim para um texto que ele escrevera sobre um ganancioso
empreendedor, que, para construir seus gigantescos imóveis, não se importava
em destruir florestas, matar animais selvagens, acabar com parte do verde,
secar rios e lagoas.
O texto exaltava sua vitoriosa carreira
empresarial. No entanto, mostrava sua arrogância, desprezo e total insensibilidade
diante dos defensores da natureza. Nós queríamos dar um fim à sua vida com
uma lição e punição exemplares. Mas sem saber como. Mané tratava de alguns
pássaros perto de nós, ouviu o assunto de que falávamos e, interessado, deu
uma versão pessoal, surpreendendo a mim e a Jorge: "Pelo que estão falando,
esse homem não ligava para os animais, rios, árvores e florestas, não é?"
Apenas balançamos a cabeça positivamente, numa
leve consideração. Acostumado com suas brincadeiras, eu esperava algo hilariante,
debochado. Porém, ele foi sincero, decidido a punir o nosso personagem:
"Esse cara morreu e vocês querem que ele seja
punido lá no céu? Então, em vez de pô-lo diante de um Tribunal, por que não
o põem diante de Deus?
Respondemos que ele não merecia ver Deus. E
Mané não se fez de rogado.
"Sim. Mas quando esse joão chegar perto do
Deus que eu imagino ele vai levar um susto", comentou Mané.
Fiquei curioso para saber que deus ele imaginava.
Porque nunca pensei que Mané tivesse um deus na cabeça:
"Quando ele chegar perto de Deus verá um Ser
cujo corpo é uma frondosa árvore, com micos, gambás, gatos, cobras. Ou saltando
ou rastejando em seu tronco; seus braços longos serão galhos floridos com
ninhos e frutas penduradas; seus olhos, dois rios em que se pode ver peixes
mergulhando; sobre sua cabeça verá pássaros em revoada; à sua volta, vários
animais... Deus é a própria natureza que esse homem, agora, diante dele, destruía
sem dó.
" Fantástico! Terminamos o texto com aquela
visão futurista, ecológica, pessoal de um homem que sempre viveu em comunhão
com a natureza.