O
7 CICATRIZADO
Já escrevi nesta coluna, e não me canso de falar, que poucas
pessoas tiveram o privilégio de viver ao lado de dois fenômenos da arte nacional.
No entanto, á de Garrincha que guardo as melhores recordações das conversas
que invariavelmente tínhamos quando ficávamos a sós em nossas diversas residências
pelo Rio de Janeiro.
Numa tarde chuvosa, eu perdia algumas partidas de damas (Mané
era excelente jogador, fruto do aprendizado de anos nas concentrações). Perguntei-lhe,
como sempre curioso por sua famosa carreira, por que na sua perna direita
havia uma cicatriz enorme com o formato do número 7. Mané levantou a perna
preguiçosamente e mostrou com certo orgulho, por estranho que possa parecer,
o 7 cicatrizado na canela.
Quis saber então se ele mandara tatuar o tal 7. A resposta foi
dada rapidamente:
"Claro que não, Juca! Isso foi resultado de um jogo no qual fui
marcado por um dos melhores laterais do Brasil, Altair, do Fluminense. O cara
era um especialista em carrinhos. Conseguia desarmar os adversários sem tocá-los.
Porém, numa tarde acho que ele ficou um pouco irritado comigo e seu carrinho
virou um caminhão e fez isso na minha perna.
Garrincha falava com respeito de Altair. Não havia mágoa alguma
no seu semblante pelo fato. O que parecia fato superado. Como era costume
de Mané, ele não carregava ódio de ninguém, nem falava em vingança.
Meu irmão Gilson e eu sempre comentávamos com amigos sobre o
registro eterno na perna de Maná, feito por Altair. Recentemente, estive no
fluminense, ao lado de Luiz Antônio Calvet, um amigo tricolor (herança de
seu pai, outro fanático torcedor do clube que tem no centro do jardim de sua
casa um mastro no qual tremula a bandeira do clube da Rua Álvaro Chaves).
Ao chegarmos ao interior da sede do centenário clube, com
seus famosos vitrôs franceses, avistei Altair. O ex-lateral mantém o corpo
atlético do tempo em que jogava. Meu amigo suspirou, achando que se Carlos
Alberto Parreira, técnico à época, pusesse a camisa 6 em Altair, ele ainda
daria conta do recado.
Aproximei-me de Altair e não resisti. Eu me apresentei e contei-lhe
a história do 7 na perna de Mané. Altair, com expressão emocionada ao saber
que Mané falara dele, me respondeu com sinceridade espontânea.
"Rapaz, eu nunca entrei desIealmente em Garnncha. Quando eu o
enfrentava jogava futebol. Embora o que ele fazia em campo não podia ser considerado
futebol, estava além da nossa imaginação. Mas repito: eu jamais entrei pra
quebrar aquele homem. De repente, Altair lembrou-se de algo:
"Desculpe-me. Uma vez eu perdi realmente a paciência com
ele. Eu queria a qualquer custo ser convocado e disputar a copa do Mundo de
62. Fui convocado e durante um treino eu, pelo time reserva, teria de marcar
Mané. Então, pedi para ele maneirar, porque eu queria estar no Chile. Na primeira
jogada, ele me driblou; na segunda, eu o desarmei e fui para o ataque. Perdemos
a bola e no contra-ataque, pelo meu setor, desguarnecido, ele fez o cruzamento
para a área. Gol. Na terceira disputa entre nós, fui driblado duas vezes e...
Gol. Cheguei perto dele mais uma vez e quase implorando o adverti: Mané,
Copa é sonho de qualquer jogador e quero estar lá. 'Pode deixar, Altair, vou
só tocar a bola', respondeu ele. Acreditei. Fui para cima dele despreocupadamente
num lance e nem vi por onde o torto jogara a bola. Então, na disputa seguinte,
perdi a cabeça, dei-lhe um tranco, joguei o homem para fora de campo. Ele
saiu catando cavaco, desequilibradamente, quase se chocou contra o alambrado.
Foi a única vez em que fui mais forte para cima dele. Mas assim como não disputei
uma partida da Copa, pois era reserva de Nílton Santos, também não fiz um
7 na sua perna. Jamais me perdoaria."